"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho"- Mário Quintana

sábado, 2 de julho de 2011

Amor: Sentimento ou ação?

Escrever as reflexões que há tempos faço como um exercício diário para não me deixar ser engolido pelo mundo tem o benefício de registrarmos os pensamentos e podermos lembrar depois o que sentimos na ocasião. Começo esse post com essa afirmação pessoal porque esta reflexão refere-se a um acontecimento que em outubro fará três anos, o caso Eloá Cristina. Somente recordando brevemente o acontecido:
"Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o domicílio de sua ex-namorada, Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, no bairro de Jardim Santo André, em Santo André (Grande São Paulo), onde ela e colegas realizavam trabalhos escolares. Inicialmente dois reféns foram liberados, restando no interior do apartamento, em poder do sequestrador, Eloá e sua amiga Nayara Silva. Após mais de 100 horas de cárcere privado, policiais do GATE e da Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo explodiram a porta - alegando, posteriormente, ter ouvido um disparo de arma de fogo no interior do apartamento - e entraram em luta corporal com Lindemberg, que teve tempo de atirar em direção às reféns. A adolescente Nayara deixou o apartamento andando, ferida com um tiro no rosto, enquanto Eloá, carregada em uma maca, foi levada inconsciente para o Centro Hospitalar de Santo André. O sequestrador, sem ferimentos, foi levado para a delegacia e, depois, para a cadeia pública da cidade. Posteriormente foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Eloá Pimentel, baleada na cabeça e na virilha, não resistiu e veio a falecer por morte cerebral."
Como nos demais casos a opinião pública pedia maior rigor na punição do agressor. Era o que se escutava em cada grupo de pessoas conversando, independente do lugar: bares, restaurantes, trabalho, escolas, igrejas, etc. Novamente, alguns pediam a pena de morte.
A minha reflexão na época, que registro hoje, envolve também o rapaz, sem esquecer a vítima, partia da seguinte pergunta: O que levou o rapaz a agir dessa maneira? Simplesmente ele tem um perfil violento? Acredito sim que no desequilíbrio do rapaz, sem tirar um único grama de sua responsabilidade. Mas, é uma resposta suficiente para o que aconteceu? Pode satisfazer a alguns ou muitos, mas não é suficiente.
Na minha tentativa leiga de buscar uma resposta melhor (lembrando sou da área de telecomunicações, não sociólogo, filósofo, psicólogo ou antropólogo) e conversando com alguns amigos, inclusive um padre, vislumbre uma relação entre essa tragédia e o título do post.
Na reflexão anterior abordei muito brevemente o título do post, sobre conceito distorcido de Amor, e aqui peço licença para colocar em letra maiúscula.Imagino que na mente perturbada do rapaz, ele amava a vítima, assim como ela amou o agressor em algum momento. Em um conto de fadas, o principe e a princesa, talvez. Imaginavam algo como felizes para sempre. Podemos entender o que o rapaz entendia por amor, pelas consequencias. Nitidamente, ele tinha um sentimento de posse pela vítima em sua mente:"EU NÃO POSSO VIVER SEM ELA. NÃO SEREI FELIZ. EU POSSO FAZÊ-LA FELIZ. A FELICIDADE DELA ESTÁ COMIGO". Olha o egoísmo, que foi uma das bases do post anterior, aqui novamente. Em algum lugar, de alguma maneira, ele aprendeu que amor é sentimento possessivo. De certa forma, remetendo aos contos de fadas novamente, ele se via como o príncipe encantado que ia salvar a princesa presa na torre, e vigiada pelo dragão. Dragão aqui era os pais, amigos que não viam essa relação como saudável e se posicionaram contra. Devia pensar: "Vou mostrar como eu a amo, vou mostrar até onde estou disposto a ir por causa dela". Cá entre nós, somos bombardeados todos os dias por modelos assim. Há anos não assisto a novelas, por falta de tempo, mas principalmente escolha. Pois me lembro que muitos desses modelos de amor como sentimento possessivo são apresentados nessas novelas da seguinte forma: "É ERRADO, MAS É POR AMOR". Então trai-se porque está apaixonado(a) pela(o) amante, mente-se, destroi-se casamentos, famílias, relacionamentos por amor. O amor é apresentado como um sentimento possessivo, ou de prazer somente, e até confunde-se amor com paixão.  Deixo claro que não repudio a paixão, desde que seja equilibrada. Em verdade, acredito que bons relacionamentos podem começar com a paixão, mas deve-se transformar em amor. E me recordo de uma vez a namorada de um dependente químico me confidenciava que o rapaz vivia chantageando: "Se você me largar, eu me afundo de vez, pois perco o chão". Um rapaz que também acha que amor é sentimento possessivo, mantendo ela por perto, e perto do seu vício. Não recomendei que larguasse o namorado, mas, disse para ter cuidado. Afinal, o amor estragado do rapaz poderia atingí-la.
 E qual o conceito mais adequado de Amor?
Concordo eu, com Jesus Cristo, Amor é ação. Ação de desejar e trabalhar pela felicidade da pessoa que se ama. Mesmo que essa felicidade seja longe, mesmo que seja não estar ao lado. Amar é sacrificar-se pela pessoa amada. Lembro dos sacrifícios que meu pai fez por amor a família, levantando de madrugada (inclusive indo debaixo de chuvas torrenciais), suportando colegas que riam de sua dedicação a família, e até não comendo de forma inadequada. Ele nunca foi bom com as palavras, mas, ele sempre agiu como quem Ama. Para os não cristãos, Buda também já dizia que Amor é sacrifício. Olhemos para as mães que se sacrificam tanto pelos filhos, tudo por Amor. É claro que volta e meia há aquelas também que acham Amor como sentimento possessivo.
Acho interessante que em algum momento Jesus Cristo diz: "Amais uns aos outros como a ti mesmo", ou seja, Ele não recomenda que Amemos uma pessoa mais que a nós mesmos, mas na mesma medida. É como se Ele dissesse:"Não faça o mal que não desejaria que lhe fizessem. Faria esse sacrifício por si mesmo? Ou não?" Creio eu, que desde aquela época Ele já dizia que amor é ação de bem, não sentimento possessivo. Pessoas que conseguiram influenciar o mundo positivamente trabalharam pelo bem de outros ou de todos. Essas pessoas Amaram de fato. Amar é agir para a felicidade, para o melhor. Caso contrário não é Amor.
Vamos refletir sobre o que ensinamos as pessoas sobre o que é o amor? O que temos ensinado sobre isso às nossas crianças e jovens? Afinal, há anos as pessoas falam com facilidade "eu te amo",(faço questão de deixar em minúsculo), mas, sem amar. Talvez por carência afetiva dos pais, encontram no sentimento de namorados e namoradas, aquela atenção que não teve, o bom relacionamento que não teve. Vejo hoje, jovens mulheres dizendo tão facilmente "eu te amo, é o homem da minha vida" para um rapaz que acabou de conhecer. Apaixonadas, carentes afetivas, mas acham que é amor. Já percebi que filhos que se relacionam bem com seus pais e mães, não caem nessas armadilhas. Pessoas que, de alguma maneira, conhecem Amor como ação que exige, inclusive sacrifício, não se entregam a depressão, a maus momentos, às tristezas. Enfim são pessoas que não caem com facilidade. Estão sendo bem preparadas para os desafios da vida.
Não é momento da sociedade rever o seu conceito de amor? De substituir "sentimento possessivo" para "ação pelo bem"?
Abraço!! E bom domingo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário