"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho"- Mário Quintana

domingo, 28 de setembro de 2014

Comprei um sapato maravilhoso, e dois dias depois meu calcanhar doía

Anos atrás fui a uma loja de calçados para comprar um par de sapatos. Após, algum tempo olhando, eu encontrei um modelo que me agradou muito. Ele era de bom material, confortável e de um preço que eu estava disposto a pagar. Saí da loja com a certeza de ter feito um bom negócio. Entretanto, após dois dias de uso apareceu uma bolha no calcanhar do pé direito. Fiquei lembrando que tinha calçado o sapato e dado alguns passos, e ele realmente na ocasião da compra era muito confortável. A conclusão que tive é que, por mais que eu soubesse o meu número, detalhes dos materiais utilizados, design e tivesse o suporte de um vendedor bem intencionado, somente no dia a dia que saberia se realmente tinha feito uma boa compra. Ou seja, só o convívio vai verificar se a imagem que uma pessoa teve de um produto é a mesma que lhe foi vendida, e se tal imagem corresponde à realidade.
Contudo, o que realmente me incomodou com essa lembrança foi quando passei a relacioná-lo com a vida cotidiana. Tal processo iniciou quando comecei a relembrar alguns fatos acerca da minha história ou mesmo da história de alguns amigos. Essas histórias eram relacionadas a decepções pessoais e, principalmente, tinham ligações com pessoas que eram próximas, como amigos. A partir dessas lembranças surgiram indagações sobre as causas dessas decepções. Ou seja, por que as pessoas se decepcionam e decepcionam outras pessoas. Parecem coisas desconexas a princípio, e realmente me incomodou o porquê de estar procurando uma conexão entre o meu par de sapatos e as relações humanas.
Então, vieram-me as seguintes perguntas: O que eu sou de fato? O que as pessoas acham que sou? O que EU acho que sou? Essas três perguntas idealmente teriam a mesma resposta. Contudo, quando pensamos com maior profundidade teremos pelo menos três respostas diferentes, que refletem em pelo menos três imagens diferentes: uma imagem da realidade, pelo menos uma imagem criada pelas pessoas e, uma imagem que cada pessoa oferece de si mesma.
Consequentemente, perguntei-me as causas dessa diversidade de imagens. Após passar alguns dias, fiquei pensando se as causas não estão ligadas aos nossos sonhos, núcleo social, moral, ética e educação. Ou seja, talvez as causas encontram-se em nossos desejos e no ambiente social em que cada um vive. Diante disso, oferecemos uma imagem daquilo que pensamos que somos. Em contrapartida, as pessoas, também baseados em seus desejos, formação e o próprio ambiente, aceitam uma imagem a respeito de cada indivíduo que passa por elas. No entanto, esse processo de oferta e aceitação fará com que a imagem oferecida e a que foi aceita sejam diferentes. Em muitos casos, como em início de namoro, geralmente as imagens vão inicialmente se adequando. É o caso dos primeiros meses de um namoro, quando tudo é perfeito e maravilhoso. Com o passar do tempo, as diferenças voltam a aparecer e a aumentar e, quando o casal não consegue conviver com elas, vêm as decepções. Essas situações não se restringem a relações amorosas, se expandindo a relações de amizade, profissionais e até familiares.
Reparem que, me parece, as diferentes imagens podem surgir não somente de forma maliciosa ou leviana. Elas podem surgir de forma inocente ou mesmo inconscientemente, através dos desejos de cada um, do entusiasmo de estar começando uma carreira ou amizade, ou mesmo na ânsia por aceitação. As pessoas procuram ser melhores a cada dia e, no processo, oferecem a imagem daquilo que almejam ser. Por outro lado, as outras pessoas podem aceitar a imagem oferecida ou comprar uma imagem distorcida. Dessa maneira, há uma luta diária para tornar a imagem real que oferecemos bem parecida com a que oferecemos, e outra para corrigir possíveis distorções que as outras pessoas tenham. Talvez esse seja um processo de autoconhecimento e mudança, e ele que pode levar a vida toda para ser realizado, mas que acho que vale o esforço.
Por fim, lembrei de uma antiga propaganda comercial de refrigerante, cujo slogan era: IMAGEM NÃO É NADA, SEDE É TUDO. Era um comercial que, de certa forma, criticava a manipulação da mídia, imagem e da informação para vender um produto. Tal propaganda comercial é uma ironia por si mesma, afinal uma propaganda comercial sempre vende uma imagem específica de um produto. Diante de tal lembrança penso que a IMAGEM tem grande valor, pois é o que as pessoas vêm e podem julgar. Ou seja, é o nosso cartão de visitas. Nossa imagem deve ser autêntica e bem cuidada. Ela não deve ser menosprezada, pois podemos ser um sapato que causa dores aos pés dos outros e até a nós mesmos.

Texto originalmente escrito para: http://aves.org.br/revista-vitoria-mais/coluna/comprei-um-sapato-maravilhoso-e-dois-dias-depois-meu-calcanhar-doia

A difícil arte de compor um Álbum de Família

Sob recomendação de amigos eu assisti ao filme Álbum de Família (2014). Com um elenco muito bem escalado, este filme retrata os eventos decorrentes de uma reunião de família devido ao falecimento do patriarca. Contudo, desde o início, nos é mostrado que tal reunião não era desejada por muitos membros dela. Os motivos são apresentados em doses homeopáticas ao longo dos três atos do filme.
Os personagens, embora sejam tridimensionais, têm características bem marcantes, o que os torna muito diferentes uns dos outros. Essa configuração facilita bastante o tema central do filme que é exatamente os conflitos gerado a partir das diferenças entre as personagens femininas da história. A partir deles, os desejos, sonhos e segredos são expostos, sem muitas preocupações com as opiniões.
No eixo principal estão: Meryl Streep como a mãe já sem juízo e viciada em medicamentos; Julia Roberts como Bárbara, a filha mais velha, madura e forte; Juliette Lewis é Karen, a irmã mais nova e que insiste em viver em um mundo de sonho, onde sua beleza e seu charme nunca terminam; e Jullianne Nicholson a introvertida irmã do meio chamada Ivy, que no passado ficou na casa dos pais para as outras viverem seus sonhos.
Os pilares da trama são os personagens da Meryl Streep e Julia Roberts. A primeira é responsável por algumas das cenas engraçadas e é quem aperta o gatilho para a maioria das cenas de conflitos, a segunda parece ser o para-raios onde os conflitos e os segredos caem primeiro.
Contudo, destaco ainda duas atuações: Benedict Cumberbatch como o pequeno Charlie e Abigail Breslin como a filha adolescente de Bárbara e seu ex-marido (Ewan McGregor).
Para quem só tem como referência 'A pequena Miss Sunshine', é uma grata surpresa ver a evolução da jovem atriz. É uma personagem que quase não fala, e é consequência "in persona" de alguns dos conflitos e descasos mencionados no filme. Ela foge do tipo de adolescente que grita, esperneia ou é brilhante. Simplesmente é "introvertida" naquele mundo de estranhos que é sua família.
Já a atuação de Benedict Cumberbatch me surpreendeu, e muito, devido à lembrança da sua interpretação impecável no brilhante e impiedoso Khan em Star Trek - IntotheDarkness. O mesmo olhar que levou terror à tripulação da USS Enterprise, agora pertence a um sujeito introvertido e inseguro. Logo na primeira cena fica claro que o "pequeno" refere-se exatamente a sua fraca personalidade quando ele abraça o personagem de Chris Cooper. A voz ameaçadora e segura de Khan e do dragão Smaulg (do fraco O Hobbit 2) agora quase não é audível em algumas cenas. Uma excelente interpretação.
Escrever sobre Álbum de Família é escrever sobre os finos e delicados fios que ligam os membros da família. É, também, abordar como pequenas perturbações ou o rompimento de fios afetam a todos eles, como a uma teia de aranha.
Alguém pode dizer que é uma visão pessimista da família, mas eu prefiro ver como uma oportunidade de reflexão dos desafios que as famílias vivem todos os dias. Talvez a felicidade e solidez encontra-se em como conviver com essas diferenças entre as pessoas. Diferenças estas que tornam as relações humanas bem complexas. Se há verdade na frase “A vida é simples, nós é que complicamos”, ela reside, na minha opinião, a complicação vem exatamente da interação entre as pessoas. Mas, quem consegue viver sem relações sociais? Quem consegue viver sem interagir com outras pessoas, dirigir uma palavra a alguém? Partindo do pressuposto que ninguém consegue, a vida então não é simples. Pelo contrário, ela é bem difícil e cheia de detalhes. Se alguém deseja montar um bom Álbum de Família é preciso resolver cada conflito, cada diferença e olhar cada detalhe.
 Texto escrito para: http://aves.org.br/revista-vitoria-mais/coluna/a-dificil-arte-de-compor-um-album-de-familia

segunda-feira, 26 de maio de 2014

X-Men - Dias de um Futuro Esquecido

Assisti hoje ao novo filme dos X-men. Gostei muito, acredito ser o melhor da franquia. Diferente dos filmes desenvolvidos pela Marvel, os filmes dos X-Men tem uma boa carga dramática. Tem notas de filosofia na sua construção, o que torna os filmes mais intensos e pesados. Um risco que Brian Singer administra bem. O legal é que eles funcionam como equipe de fato, e os dons de uns complementam os dos outros.

A interação entre os velhos Magneto e Xavier, embora em poucos minutos, é um dos grandes pontos positivos do filme, agindo como aliados e amigos. A química entre os personagens é simplesmente magnífica, onde ambos lamentam algumas de suas decisões (O discurso de Luther King "I have a dream" se encaixaria bem, e sem soar piegas). O futuro apocalíptico.é bem inspirado em Exterminador do Futuro (sendo que essa saga serviu de base para o James Cameron em sua magnífica franquia ), um pesadelo inimaginável. O Wolverine continua a emprestar o seu carisma costumeiro e como é bom ver o elenco original.

No entanto, o centro do filme é a Mística, muito bem interpretada pela Jennifer Lawrence. Sempre achei uma personagem fascinante, complexa. Embora partilhe da mesma posição de Magneto, há sutis diferenças. As motivações de ambos estão relacionadas ao medo, rejeições e a sobrevivência. Entretanto, Magneto está disposto a declarar uma guerra e sacrificar quem for por sua causa, enquanto a Mística está disposta a entrar em uma guerra para proteger os da sua espécie. O mais interessante dessa nova abordagem é que nos oferece a trajetória da sua queda, das suas escolhas, notem quando ela observa os relatórios das experiências com mutantes. Todo o arco, assim como nos quadrinhos, é consequência de uma decisão dela.

Claro que Michael Farsbender, Ian McLeen, James Mcvoiy e Patríc Stewart estão muito bem, mas Jennifer Lawrence é quem domina o filme. Confesso que não gosto da romanização de cenas trágicas e pesadas, mas neste filme foram muito bem elaboradas e desenvolvidas, onde as cenas em câmera lenta e trilha ao fundo foram muito bem montadas.

O último ato envolvendo Xavier e Mística é maravilhoso, com a "confissão" de Xavier, praticamente pedindo perdão, e a montagem perfeita de passado e futuro. Ela está decepcionada com todos, tanto Xavier como Magneto. Acredito que os conflitos da Mística é o ponto onde estou, onde a condolência plena no Xavier e o radicalismo de Magneto devem encontrar o ponto de equilíbrio. Saí do cinema com uma satisfação bastante rara

Robocop - 2014

Finalmente assisti ao eficiente filme RoboCop do José Padilha.
A releitura do filme original de 1987 (reparem que escrevi "releitura" e não "refilmagem") atualiza a sua crítica e "sátira" para a política externa norte-americana e o desenvolvimento e uso de drones pelas forças armadas e, no filme, como força policial. Esses dois aspectos são amplamente discutidos e elogiados em várias críticas sobre o filme. Entretanto, o aspecto que mais chama a atenção é o "sistema" também bem focado em Tropa de Elite 2.

É acertada a decisão de tornar o protagonista vivido pelo bom Joel Kinnaman consciente de sua condição desde o início, e mais ainda por torná-lo inconscientemente um "escravo do sistema", e aqui eu traço um paralelo com Tropa de Elite 2, onde como diz o Coronel Nascimento: "O sistema é fod.....". Não somente a programação implantada em seu consciente, mas também o sistema de criação, desenvolvimento, venda e descarte de um produto, e de manipulação da informação, onde o personagem de Michael Keaton até ensaia seus discursos sobre o falecimento do policial Alex Murphy. Aliás, é dele uma das frases mais geniais: "AS PESSOAS NÃO SABEM O QUE QUEREM ATÉ DIZERMOS O QUE QUEREM". A propósito, fazia tempo que não via uma boa atuação dele.

Embora o personagem do ótimo Gary Oldman seja a voz da consciência, do conflito ético e a voz mais humana, é a esposa do protagonista, bem interpretada por Abbie Cornish, é quem realmente traz essa carga emocional ao filme, acreditando que o marido "veste" uma armadura, e não que é uma armadura. A cena em que o protagonista pede para ver o que restou do homem não chega a ser chocante, mas Joel Kinnaman expressa bem a frustração do ser humano que percebe que praticamente tudo lhe foi tirado.

Além do sistema, outros elementos de Tropa de Elite também estão lá: Corrupção policial e a influência da mídia, bem caricaturada por Samuel L Jackson, e seu penteado James Brown. Quanto a este último, se ele retrata a figura daquele que fica nos holofotes fazendo o lobby e vendendo o produto para a opinião pública através de discursos inflamados e apelativos (não é acaso que o filme inicia e termina com seu personagem), Michael Keaton é quem atua nos bastidores cuidando da criação. Aliás, é bem funcional não explicitar que Samuel L Jackson é parte consciente do sistema, não o fazendo aparecer em reuniões ou telefonando para componentes da indústria. Voltando brevemente a Gary Oldman, é dele outra frase que se não fosse empregada pelo personagem correto e no momento correto, soaria piegas: É UM FALSO LIVRE ARBÍTRIO.

Juntar tantos elementos em um filme é bastante arriscado, um convite a uma obra mal feita, ainda mais sendo a refilmagem do que é considerado um cult. Um fator preocupante adicional poderia ser a falta de cenas chocantes ou violência, pelas quais o original ficou tão famoso. No entanto, José Padilha soube fazer um ótimo filme. Não com o mesmo impacto do original de 1987, mas um filme muito bem costurado e acabado. Enfim, recomendado.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Album de Família

Realmente, um bom filme sobre conflitos familiares. Seus pilares, como haviam me falado, são os personagens da Meryl Streep e Julia Roberts. Enquanto a personagem de Meryl é responsável por algumas das cenas engraçadas e é quem aperta o gatilho para a maioria das cenas de conflitos, Julia Roberts parece ser o para-raios onde os conflitos caem primeiro. Todo o elenco foi muito bem escalado. 
Contudo, destaco duas atuações em especial: Benedict Cumberbatch como o little Charlie e Abigail Breslin como a filha adolescente de Julia Roberts e Ewan McGregor.
Para quem só tem como referência A pequena Miss Sunshine, é uma grata surpresa ver a evolução da jovem atriz, o que não surpresa para quem viu o filme Zombieland. Numa personagem que quase não fala, e é consequência "in persona" de alguns dos conflitos e descasos mencionados no filme. Ela foge do tipo de adolescente que grita, esperneia ou é brilhante. Simplesmente é "introvertida" naquele mundo de estranhos que é sua família.
Já a atuação de Benedict Cumberbatch me surpreendeu, e muito, devido a lembrança da sua interpretação impecável do brilhante e impiedoso Khan em Star Trek - Into the Darkness. O mesmo olhar que instigou medo na tripulação da USS Enterprise, dá vida a um sujeito introvertido e inseguro. Logo na primeira cena fica claro que o "little" refere-se exatamente a sua fraca personalidade quando ele abraça o personagem de Chris Cooper. A voz ameaçadora e segura de Khan e do dragão Smaulg (do fraco O Hobbit 2) agora quase não é audível em algumas cenas. Uma excelente interpretação. Um dos filmes da minha lista de 2014 é The Imitation Game, protagonizado por ele sobre a vida de Alan Turing.

Não é um filme para se ver em qualquer momento, mas sem dúvida a atuação do elenco vale o ingresso.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Curvas da Vida - Clint Eastwood

Em mais uma noite de insônia assisto Curvas da Vida, com Clint Eastwood. Muito bom filme. 
Mesmo não o dirigindo, é um filme bem ao estilo drama "Clint Eastwood", ou seja, trabalha a relação entre os protagonistas, no caso pai e filha. O perfil do personagem interpretado por ele na última década não muda, um senhor um tanto mal humorado e conservador
O interessante é que a frase de Sérgio Leoni (Trilogia dos dólares) a respeito dele se aplica a esses filmes "Clint Eastwood tem duas expressões: Com chapéu e sem chapéu". No entanto, a montagem do filme e a composição do personagem usa bem a expressividade "sem chapéu". Embora não seja um personagem que inspire muita simpatia, não há como não se comover em alguns momentos como o diálogo com a falecida esposa ao pé do túmulo da mesma. A sua feição carrancuda inclusive ajuda no momento em que ele demonstra desconforto em admitir que não é da ascendência que vem a capacidade da filha em advogar.
Quanto a Amy Adams, não compromete e não é um primor de interpretação como a filha que busca um lugar ao sol. Sua relutância inicial em ir ao encontro do pai e postura firme, simplesmente revela sua carência pela falta da companhia dele na sua infância.
O personagem de Justin Timberlake está lá só para o público teen feminino, e não acrescenta em nada o enredo, mas pelo menos também não compromete o filme. O restante do elenco oferece o suporte necessário para os dois protagonistas. 
Enfim, mesmo não sendo o diretor, é de forma geral um filme de Clint Eastwood.
Difícil não gostar.