Finalmente assisti ao eficiente filme RoboCop do José Padilha.
A releitura do filme original de 1987 (reparem que escrevi "releitura" e
não "refilmagem") atualiza a sua crítica e "sátira" para a política
externa norte-americana e o desenvolvimento e uso de drones pelas forças
armadas e, no filme, como força policial. Esses dois aspectos são
amplamente discutidos e elogiados em várias críticas sobre o filme. Entretanto, o aspecto que mais chama a atenção é o "sistema" também bem focado em Tropa de Elite 2.
É acertada a decisão de tornar o protagonista vivido pelo bom Joel
Kinnaman consciente de sua condição desde o início, e mais ainda por
torná-lo inconscientemente um "escravo do sistema", e aqui eu traço um
paralelo com Tropa de Elite 2, onde como diz o Coronel Nascimento: "O
sistema é fod.....". Não somente a programação implantada em seu
consciente, mas também o sistema de criação, desenvolvimento, venda e
descarte de um produto, e de manipulação da informação, onde o
personagem de Michael Keaton até ensaia seus discursos sobre o
falecimento do policial Alex Murphy. Aliás, é dele uma das frases mais
geniais: "AS PESSOAS NÃO SABEM O QUE QUEREM ATÉ DIZERMOS O QUE QUEREM". A
propósito, fazia tempo que não via uma boa atuação dele.
Embora o personagem do ótimo Gary Oldman seja a voz da consciência, do
conflito ético e a voz mais humana, é a esposa do protagonista, bem
interpretada por Abbie Cornish, é quem realmente traz essa carga
emocional ao filme, acreditando que o marido "veste" uma armadura, e não
que é uma armadura. A cena em que o protagonista pede para ver o que
restou do homem não chega a ser chocante, mas Joel Kinnaman expressa bem
a frustração do ser humano que percebe que praticamente tudo lhe foi
tirado.
Além do sistema, outros elementos de Tropa de Elite
também estão lá: Corrupção policial e a influência da mídia, bem
caricaturada por Samuel L Jackson, e seu penteado James Brown. Quanto a
este último, se ele retrata a figura daquele que fica nos holofotes
fazendo o lobby e vendendo o produto para a opinião pública através de
discursos inflamados e apelativos (não é acaso que o filme inicia e
termina com seu personagem), Michael Keaton é quem atua nos bastidores
cuidando da criação. Aliás, é bem funcional não explicitar que Samuel L
Jackson é parte consciente do sistema, não o fazendo aparecer em
reuniões ou telefonando para componentes da indústria. Voltando
brevemente a Gary Oldman, é dele outra frase que se não fosse empregada
pelo personagem correto e no momento correto, soaria piegas: É UM FALSO
LIVRE ARBÍTRIO.
Juntar tantos elementos em um filme é bastante
arriscado, um convite a uma obra mal feita, ainda mais sendo a
refilmagem do que é considerado um cult. Um fator preocupante adicional
poderia ser a falta de cenas chocantes ou violência, pelas quais o
original ficou tão famoso. No entanto, José Padilha soube fazer um ótimo
filme. Não com o mesmo impacto do original de 1987, mas um filme muito
bem costurado e acabado. Enfim, recomendado.
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