"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho"- Mário Quintana

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Robocop - 2014

Finalmente assisti ao eficiente filme RoboCop do José Padilha.
A releitura do filme original de 1987 (reparem que escrevi "releitura" e não "refilmagem") atualiza a sua crítica e "sátira" para a política externa norte-americana e o desenvolvimento e uso de drones pelas forças armadas e, no filme, como força policial. Esses dois aspectos são amplamente discutidos e elogiados em várias críticas sobre o filme. Entretanto, o aspecto que mais chama a atenção é o "sistema" também bem focado em Tropa de Elite 2.

É acertada a decisão de tornar o protagonista vivido pelo bom Joel Kinnaman consciente de sua condição desde o início, e mais ainda por torná-lo inconscientemente um "escravo do sistema", e aqui eu traço um paralelo com Tropa de Elite 2, onde como diz o Coronel Nascimento: "O sistema é fod.....". Não somente a programação implantada em seu consciente, mas também o sistema de criação, desenvolvimento, venda e descarte de um produto, e de manipulação da informação, onde o personagem de Michael Keaton até ensaia seus discursos sobre o falecimento do policial Alex Murphy. Aliás, é dele uma das frases mais geniais: "AS PESSOAS NÃO SABEM O QUE QUEREM ATÉ DIZERMOS O QUE QUEREM". A propósito, fazia tempo que não via uma boa atuação dele.

Embora o personagem do ótimo Gary Oldman seja a voz da consciência, do conflito ético e a voz mais humana, é a esposa do protagonista, bem interpretada por Abbie Cornish, é quem realmente traz essa carga emocional ao filme, acreditando que o marido "veste" uma armadura, e não que é uma armadura. A cena em que o protagonista pede para ver o que restou do homem não chega a ser chocante, mas Joel Kinnaman expressa bem a frustração do ser humano que percebe que praticamente tudo lhe foi tirado.

Além do sistema, outros elementos de Tropa de Elite também estão lá: Corrupção policial e a influência da mídia, bem caricaturada por Samuel L Jackson, e seu penteado James Brown. Quanto a este último, se ele retrata a figura daquele que fica nos holofotes fazendo o lobby e vendendo o produto para a opinião pública através de discursos inflamados e apelativos (não é acaso que o filme inicia e termina com seu personagem), Michael Keaton é quem atua nos bastidores cuidando da criação. Aliás, é bem funcional não explicitar que Samuel L Jackson é parte consciente do sistema, não o fazendo aparecer em reuniões ou telefonando para componentes da indústria. Voltando brevemente a Gary Oldman, é dele outra frase que se não fosse empregada pelo personagem correto e no momento correto, soaria piegas: É UM FALSO LIVRE ARBÍTRIO.

Juntar tantos elementos em um filme é bastante arriscado, um convite a uma obra mal feita, ainda mais sendo a refilmagem do que é considerado um cult. Um fator preocupante adicional poderia ser a falta de cenas chocantes ou violência, pelas quais o original ficou tão famoso. No entanto, José Padilha soube fazer um ótimo filme. Não com o mesmo impacto do original de 1987, mas um filme muito bem costurado e acabado. Enfim, recomendado.

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