"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho"- Mário Quintana

domingo, 28 de setembro de 2014

A difícil arte de compor um Álbum de Família

Sob recomendação de amigos eu assisti ao filme Álbum de Família (2014). Com um elenco muito bem escalado, este filme retrata os eventos decorrentes de uma reunião de família devido ao falecimento do patriarca. Contudo, desde o início, nos é mostrado que tal reunião não era desejada por muitos membros dela. Os motivos são apresentados em doses homeopáticas ao longo dos três atos do filme.
Os personagens, embora sejam tridimensionais, têm características bem marcantes, o que os torna muito diferentes uns dos outros. Essa configuração facilita bastante o tema central do filme que é exatamente os conflitos gerado a partir das diferenças entre as personagens femininas da história. A partir deles, os desejos, sonhos e segredos são expostos, sem muitas preocupações com as opiniões.
No eixo principal estão: Meryl Streep como a mãe já sem juízo e viciada em medicamentos; Julia Roberts como Bárbara, a filha mais velha, madura e forte; Juliette Lewis é Karen, a irmã mais nova e que insiste em viver em um mundo de sonho, onde sua beleza e seu charme nunca terminam; e Jullianne Nicholson a introvertida irmã do meio chamada Ivy, que no passado ficou na casa dos pais para as outras viverem seus sonhos.
Os pilares da trama são os personagens da Meryl Streep e Julia Roberts. A primeira é responsável por algumas das cenas engraçadas e é quem aperta o gatilho para a maioria das cenas de conflitos, a segunda parece ser o para-raios onde os conflitos e os segredos caem primeiro.
Contudo, destaco ainda duas atuações: Benedict Cumberbatch como o pequeno Charlie e Abigail Breslin como a filha adolescente de Bárbara e seu ex-marido (Ewan McGregor).
Para quem só tem como referência 'A pequena Miss Sunshine', é uma grata surpresa ver a evolução da jovem atriz. É uma personagem que quase não fala, e é consequência "in persona" de alguns dos conflitos e descasos mencionados no filme. Ela foge do tipo de adolescente que grita, esperneia ou é brilhante. Simplesmente é "introvertida" naquele mundo de estranhos que é sua família.
Já a atuação de Benedict Cumberbatch me surpreendeu, e muito, devido à lembrança da sua interpretação impecável no brilhante e impiedoso Khan em Star Trek - IntotheDarkness. O mesmo olhar que levou terror à tripulação da USS Enterprise, agora pertence a um sujeito introvertido e inseguro. Logo na primeira cena fica claro que o "pequeno" refere-se exatamente a sua fraca personalidade quando ele abraça o personagem de Chris Cooper. A voz ameaçadora e segura de Khan e do dragão Smaulg (do fraco O Hobbit 2) agora quase não é audível em algumas cenas. Uma excelente interpretação.
Escrever sobre Álbum de Família é escrever sobre os finos e delicados fios que ligam os membros da família. É, também, abordar como pequenas perturbações ou o rompimento de fios afetam a todos eles, como a uma teia de aranha.
Alguém pode dizer que é uma visão pessimista da família, mas eu prefiro ver como uma oportunidade de reflexão dos desafios que as famílias vivem todos os dias. Talvez a felicidade e solidez encontra-se em como conviver com essas diferenças entre as pessoas. Diferenças estas que tornam as relações humanas bem complexas. Se há verdade na frase “A vida é simples, nós é que complicamos”, ela reside, na minha opinião, a complicação vem exatamente da interação entre as pessoas. Mas, quem consegue viver sem relações sociais? Quem consegue viver sem interagir com outras pessoas, dirigir uma palavra a alguém? Partindo do pressuposto que ninguém consegue, a vida então não é simples. Pelo contrário, ela é bem difícil e cheia de detalhes. Se alguém deseja montar um bom Álbum de Família é preciso resolver cada conflito, cada diferença e olhar cada detalhe.
 Texto escrito para: http://aves.org.br/revista-vitoria-mais/coluna/a-dificil-arte-de-compor-um-album-de-familia

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